Publicado em 01 September 2026
Nenhuma infância começa numa página em branco.
Nenhuma infância começa numa página em branco. Antes de nascer, cada criança já ocupa um lugar feito de expectativas, desejos e histórias familiares. Neste artigo, a Dra. Leonor Pinheiro reflete sobre a diferença entre acolher uma criança e inscrever nela aquilo que ficou por realizar, e sobre por que razão momentos como o início das aulas são tão importantes para a criança descobrir quem é para além daquilo que foi imaginado para ela.
Nenhuma infância começa numa página em branco.
Antes de uma criança nascer, já existe um lugar à sua espera. Ainda que esse lugar nem sempre tenha sido desejado, preparado ou vivido sem ambivalência.
Esse lugar começa a construir-se nas fantasias dos pais, nas conversas sobre o futuro, na escolha de um nome e nas expectativas, conscientes ou não, que acompanham a sua chegada.
Nenhuma infância começa, por isso, numa página em branco.
Cada criança nasce num corpo, no seio de uma família, numa determinada cultura e momento da vida daqueles que a recebem. Encontra relações que já existiam antes dela, histórias que já foram contadas e outras que permanecem em silêncio.
É também a partir dessas histórias que os pais começam a imaginar a criança e a inscrever nela desejos, identificações e expectativas. A criança começa, assim, por existir no mundo interno dos pais antes de poder ser progressivamente conhecida na sua alteridade.
Esta dinâmica faz parte da parentalidade. A questão é mais complexa quando a criança deixa de ser reconhecida na sua subjetividade e passa a ocupar sobretudo o lugar de quem deve confirmar que a vida dos pais valeu a pena, que os seus sacrifícios tiveram sentido, que as suas renúncias serão compensadas ou que aquilo que ficou por realizar encontrará realização noutro corpo, geração e biografia.
O início das aulas é um dos momentos em que esta tensão se pode tornar mais visível. Entrar ou regressar à escola não representa apenas uma mudança de horários, mas sim sair do espaço predominantemente familiar e passa a ocupar um lugar num mundo mais amplo. A escola constitui, assim, um importante espaço de separação e diferenciação. Uma criança precisa de sentir que pode descobrir quem é para além daquilo que foi imaginado para ela. Precisa de saber que uma dificuldade não ameaça o vínculo, que uma nota não define quem é e que pode diferenciar-se sem perder o seu lugar na família.
Nenhuma infância começa numa página em branco. Mas o papel dos pais não é escrever toda a história pelos filhos.
Artigo escrito pela Dra. Leonor Pinheiro, Psicóloga Clínica e da Saúde na ID Clinics (OPP n.º 30843).
